segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ESTRUTURA FAMILIAR E DINÂMICA SOCIAL



A Família: Universalidade e Formas

A família como instituição

- A família é um fenómeno biológico e social, sendo também a base da organização das sociedades.

- Os grupos familiares produzem e impõem normas e regras, daí que a família seja vista como uma instituição fundamental.

- Sendo a família uma união de pessoas, com ligações e comportamentos específicos, ela assume-se como universal.

- Apesar da diversidade no tempo e no espaço das formas de vida familiar, os etnólogos afirmam que existe uma regra universal: a proibição do incesto.

- A sexualidade e a reprodução, bem como a necessidade de alimento e segurança são aspetos essenciais que conduziram à formação da família.

- As relações de parentesco sempre foram importantes no seio das sociedades e na sua organização.

- No entanto, com as novas tecnologias e técnicas de reprodução assistida (doação de óvulos ou de espermatozóides, ou a chamada "barriga de aluguer") que hoje existem, a noção de parentesco sofre alterações e pode ser alvo de questionamento.

Critérios que permitem diferenciar as estruturas familiares

- Podemos referir os seguintes critérios para diferenciar as estruturas familiares:

1. casamento ou aliança;
2. filiação;
3. autoridade;
4. autonomia.

1- No que respeita ao casamento ou aliança, podemos mencionar a aliança exogâmica e a poligâmica.

Numa aliança exogâmica a escolha do cônjuge não é feita pelo indivíduo mas pela sociedade. A China Antiga, a sociedade indiana e a comunidade cigana fornecem-nos exemplos destes casamentos combinados.

Nalgumas sociedades tradicionais existe a poligamia, devendo distinguir-se a poligenia (um homem com várias mulheres, prática que ainda se verifica nos povos muçulmanos) da poliandria (uma mulher com dois ou mais maridos, prática que ainda ocorre em certos povos da Índia).

Em sociedades mais recentes existe a monogamia (um homem com uma mulher e vice-versa).

2- No que toca à filiação, podemos falar em filiação patrilinear, em que só são parentes os que descendem da linha paterna, e podemos falar em filiação matrilinear, em que a autoridade pertence aos homens do grupo social da mãe.


A filiação bilinear é a que existe na nossa sociedade, em que todos os descendentes recebem o nome do pai e da mãe e em que todos podem também receber a herança disponível.

3- Relativamente à autoridade na família, pode referir-se a família patriarcal (dirigida pelo homem mais velho); a família matriarcal (onde a mulher mais idosa exerce a autoridade); e também a família gerontocrática (dirigida por um conselho de anciãos).

4- No que respeita ao grau de autonomia das famílias umas em relação às outras, temos as famílias autónomas (muito raras, visto que produzem tudo o que os seus membros necessitam); mas temos também as famílias interdependentes ou não autónomas (nas quais se verifica uma mútua dependência de venda e compra de bens e serviços).

- Assim, de acordo com os critérios apresentados, pode afirmar-se que em Portugal predomina a família monogâmica, sendo a residência num novo local que não a casa dos pais, em que a autoridade é partilhada por pai e mãe (embora a autoridade paternal ainda sobressaia), tratando-se, contudo, de um tipo de família não autónoma.


Transformações dos modelos familiares

-Alguns aspectos que, ao longo do tempo, foram mudando no que respeita à família:



. a família como unidade de produção económica foi desaparecendo;

. a autoridade paterna foi diminuindo;



. a natalidade diminui;



. a esperança média de vida aumenta;

. aumenta bastante o número de divórcios;


. as uniões de facto tornam-se muito presentes;


. as mulheres passam a trabalhar fora de casa;


. os filhos entram em grande número no jardim-de-infância;


. aumenta a incerteza em relação ao futuro e à estabilidade profissional;


. diminui o número de casamentos, mas aumenta o casamento civil;


. aumenta o número de filhos fora do casamento;


. as pessoas casam mais tarde e fazem-no de forma livre e afectuosa, não tanto por conveniência.


- A chamada família tradicional, que está ligada à sociedade industrializada actual, é composta por pai e mãe casados e seus filhos biológicos ou adoptados. Contudo, a par desta família tradicional surgem diversas famílias que podemos chamar "modernas":


. famílias monoparentais (um adulto e filho(s), devido a divórcio ou separação, morte do cônjuge, mãe solteira ou opção de um dos progenitores);

. famílias recompostas (união ou casamento de pessoas já com filhos, de que só um dos cônjuges é pai ou mãe);

. famílias homossexuais (casal formado por pessoas do mesmo sexo);

. jovens casais que não partilham o mesmo espaço (vivem em casa dos pais, são os chamados "filhos-canguru").


- Hoje vemos as relações de parentesco baseadas em laços livremente escolhidos (que têm origem na vida em comum e nos afectos partilhados) ganharem terreno às relações de parentesco fundadas nos laços de sangue.


- As transformações e mudanças que ocorrem na família estão ligadas a outras mudanças sociais (isto é, há uma influência mútua), por exemplo, o Direito, a Economia, os costumes, o progresso tecnológico, a Biologia, etc., o que mostra que a família continua a ser uma instituição social fundamental.


. O Direito produziu legislação sobre o divórcio, o aborto ou a contracepção;


. A Economia levou a que as mulheres passassem a trabalhar fora de casa;

. A mudança nos costumes trouxe novas ideias e atitudes sobre a igualdade, o individualismo, a busca de felicidade própria, etc.;

. O progresso tecnológico trouxe novas formas de lazer, de comunicar e de controlar os passos do outro;

. A biologia forneceu a pílula e outros métodos contraceptivos.

- No entanto, a família moderna permanece uma instituição social fundamental.

Mudanças nos papéis familiares e parentais


- Ao longo dos tempos a família tem sofrido bastantes alterações.


- A mudança de uma sociedade agrária para um sociedade industrial e urbana e a mudança de mentalidades que aconteceu nas últimas décadas do século XX são fatores determinantes para explicar as transformações ocorridas na família.


- Relativamente a mudanças nos papéis familiares podem apresentar-se as seguintes:


. a família torna-se menor;

. generaliza-se o trabalho feminino;


. aumenta a independência da mulher;


. a figura jurídica do chefe de família desaparece;


. a relação entre homem e mulher baseia-se cada vez mais na igualdade;


. o homem e a mulher desempenham ambos as atividades domésticas;


. o homem e a mulher são ambos responsáveis pela educação dos filhos;


(contudo, nem sempre esta partilha se verifica)


. acontece uma mudança de valores, tornando-se os sentimentos mais importantes do que as conveniências ou as hierarquias;

. verifica-se uma maior liberdade de expressão;


. há mais partilha de sentimentos e afetos;


. há mais autonomia e respeito pelas diferenças;

. há mais capacidade de adaptação ao outro e à sua realização pessoal;


. não há casamento só por motivos sexuais e a procriação obedece a um planeamento familiar.


- Relativamente a mudanças ocorridas nos papéis parentais podemos referir as seguintes:


. mudanças de valores na sociedade levaram a que hoje se valorize mais o imediato, o prazer, o individualismo e a contestação à hierarquia;


. tal mudança de valores leva os mais velhos (frequentemente) a afirmar que se verifica uma ausência de valores nos mais novos;


. há encarregados de educação que não aceitam as inovações educativas e defendem o autoritarismo do passado, há encarregados de educação que deixam andar e não se preocupam em educar de acordo com os valores que defendem, e há também encarregados de educação que se adaptam a novos valores e conseguem encontrar um equilílibrio na educação e relação com os educandos;


. perante as mudanças (por vezes drásticas e muito rápidas) o que se deve privilegiar é o diálogo, a abertura e a capacidade de negociação;

. assim, o que se defende como nova atitude para os encarregados de educação (e para os educandos também) é: ouvir e respeitar aqueles com quem vivemos, amar sem coagir, criticar sem destruir, aceitar a diferença, respeitar o outro mesmo não aceitando a sua opinião, compreender o que o outro sente, etc.


- O papel do encarregado de educação deve passar muito por saber ouvir e, após ouvir os filhos, os encarregados de educação devem tomar decisões, orientar e traçar limites.


- As decisões devem ter em vista quatro princípios fundamentais: o sentido do outro, a responsabilidade, a dimensão ética e o conceito de justiça ligado ao amor e à disciplina. Estes são aspetos fundamentais que o adulto deve transmitir aos mais novos.


- Hoje existem até os programas de educação parental, que procuram promover o equilíbrio entre o amor e a disciplina, estimular o envolvimento dos pais e educadores em áreas de interesse dos mais novos, como a relação com a escola e com os professores e a influência dos amigos, bem como ajudar a lidar com comportamentos de risco dos filhos.


- É importante, hoje, que os educadores percebam que devem dar orientações claras sobre o comportamento, dar suporte às iniciativas dos mais novos e estimular a descoberta.

FAMÍLIA E SOCIEDADE


- A família desempenha funções na sociedade (para lá das funções básicas: sexual e reprodutiva);


- Podemos dizer que as funções da família são as seguintes: renovação da população, lugar de trocas e de laços afetivos, compra de bens, presta serviços e ajudas, transmite uma língua, cultura e valores, transmite uma herança aos filhos.


- Por outro lado, a família é o agente de socialização mais importante, óu seja, é o local onde o indivíduo aprende normas, valores, crenças, comportamentos, atitudes, ofícios, a desempenhar tarefas, hábitos, etc., que lfe permitem viver em sociedade.

- Apesar de os sentimentos terem forte presença nas relações conjugais, a formação de casais é influenciada pela proximidade geofgráfica, por pertença ao mesmo meio social, por se ter o mesmo nível intelectual e por se partilhar uma identidade espiritual (religião ou ideias).

- Isto mostra que na formação do casal ainda está presente a lógica do grupo social a que se pertence.


Família, economia e afetos


- A família é hoje uma unidade de consumo de bens e serviços produzidos no seu exterior.


- Deste modo, a família é um alvo da publicidade, especialmente as crianças.


- As crianças e jovens condicionam as compras familiares (alimentos, vestuário, tecnologias, automóvel, férias, brinquedos, etc.).


- A família é também um grupo de ajuda moral, afetiva e económica (pais e avós apoiam e dão conselhos, pagam os estudos e as férias dos filhos).


- As dificuldades em arranjar emprego vieram dificultar a autonomização dos jovens, os quais ficam mais tempo dependentes da família.


- Assim, vai sendo cada vez mais adiada a saída dos jovens de casa da família e retardada a entrada na vida adulta.


- Nesta medida, temos os chamados novos "adulescentes" (adultos adolescentes). São adultos em idade, mas não têm a autonomia de um adulto.


- Nas famílias de hoje parecem ter-se rompido os laços entre os mais novos e os mais velhos.

. As crianças entram no esquema de "escola a tempo inteiro".

. A escola quase substitui a família na função de educar.

. Os idosos estão cada vez mais sujeitos ao abandono e à solidão.

. As famílias têm cada vez menos tempo e condições para cuidarem dos seus idosos.

. Os lares e centros de dia substituem a família no acompanhamento aos mais velhos.

- Ora, tudo isto é negativo, e o que deve fazer-se é um esforço para o reencontro de gerações, partilhando-se tempo, afeto e experiências e valorizando-se o papel de crianças, jovens, adultos e idosos.

- A evolução das famílias e das sociedades dependerá sempre de como tratarmos as nossas crianças e os nossos idosos.

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