segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TÓPICOS DE APOIO AO ESTUDO DO TEMA: A COMUNICAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DO INDIVÍDUO

1. COMUNICAÇÃO: INEVITABILIDADE E ELEMENTOS


Comunicar e informar

-Quando pensamos na palavra comunicar, imediatamente percebemos que comunicar é algo que faz parte da vida humana.

-Haverá outros sentidos para esta palavra, mas o essencial é aquele que nos diz que comunicar implica sempre o estabelecer de uma relação ou ligação entre pontos ou pessoas.

-Deste modo, a comunicação é o sustentáculo da vida social e um meio que possibilita e proporciona as relações humanas.

-Assim, nenhum ser humano pode escapar à comunicação, todos vivem com ela, quer dizer, a comunicação é inevitável.

-Na verdade, todos os indivíduos emitem e recebem mensagens através de códigos, sinais ou símbolos:
- um sinal é um objecto, gesto ou ideia que permite identificar algo de modo claro e rápido (por exemplo, o sinal de proibição, dizer adeus ou a bandeira vermelha na praia);
- um símbolo transmite, normalmente, um sentido mais profundo do que o sinal (por exemplo, o símbolo de uma religião, de um partido político ou de um clube desportivo).

-Podemos referir vários tipos de comunicação:
parar com o sinal vermelho e avançar com o verde (comunicação por sinais visuais);
não ocupar o estacionamento para pessoas com deficiência (comunicação codificada ou simbólica);
seguir as indicações do polícia de trânsito (comunicação gestual);
ler um anúncio num jornal (comunicação escrita);
pedir um café ao empregado de mesa (comunicação oral).

-Sabemos que o ser humano é um animal social, que vive em comunidade, inserido num determinado contexto político, cultural e económico e, enquanto tal, tem possibilidade de se exprimir e emitir as suas opiniões. Deste modo, todo o indivíduo deve ter o direito e o dever a informar e ser informado.

-Informar é transmitir a outra pessoa algo que ela desconhece.

-Para informar, podemos escolher a informação mais importante, usando a linguagem mais apropriada e a mensagem mais eficaz para o receptor que se pretende informar.

-No entanto, também podemos não informar convenientemente nem escolher a mensagem mais adequada, deixando o receptor com dúvidas ou mesmo mal informado.

-Actualmente, o poder dos meios de informação é tão grande que a comunicação tanto pode servir para informar como para enganar, ou manipular, ou ocultar a informação, fazendo passar por verdadeiro aquilo que é falso, e vice-versa.

-Informar e comunicar são, portanto, conceitos que se complementam. Na verdade, a comunicação é mais efectiva quando a informação é útil e verdadeira. Mas, ainda que não o sendo, a informação pode ser importante se permitir ao receptor retirar dela consequências positivas e interessantes para si próprio.




Linguagem, língua, fala e discurso

-Geralmente, os erros do pensamento manifestam-se nos erros linguísticos.

-As palavras e os conceitos estão ligados entre si, tal como se ligam ao pensamento e ao acto de falar.

-Muitas vezes usamos de forma indistinta termos que se referem a realidades diferentes. É o caso dos termos linguagem, língua, fala e discurso.

-LINGUAGEM: é a faculdade humana de comunicar, ou seja, é um sistema de comunicação que permite que uma mensagem seja trocada entre pelo menos duas pessoas,

-LÍNGUA: é um sistema de cariz social constituído por palavras e regras gramaticais. Sendo um património colectivo, uma língua evolui no tempo. Pode usar-se também o termo idioma para nos referirmos a ela.

-FALA: é a língua em uso, quer dizer, o acto concreto de utilizar uma língua ou idioma por parte de um sujeito falante.

-DISCURSO: é aquilo que se diz ou escreve numa determinada circunstância ou situação, procurando produzir um efeito sobre alguém.

-A linguagem que usamos com mais frequência chama-se linguagem verbal. Esta recorre ao uso de signos linguísticos, que são vulgarmente chamados palavras.

-Geralmente, as palavras apresentam duas componentes: uma componente material (sequência de letras e sons) denominada significante, e uma componente não material (que se refere a um ser, objecto ou ideia) denominada significado.

-Contudo, nem sempre uma palavra significa a mesma coisa, podendo variar de significado de acordo com o contexto e com o uso que uma determinada pessoa dela possa fazer.

-Deste modo, as palavras podem ser entendidas a dois níveis:
conotativo: no sentido particular que uma palavra ou enunciado podem tomar num certo contexto;
denotativo: refere-se ao uso permanente de uma palavra, que exclui qualquer valor subjectivo.



Principais formas de comunicação ou linguagem

-Existem diversas formas de linguagem. Podemos referir algumas:

Linguagem verbal (escrita) - manuscrita ou impressa (por exemplo, usando o alfabeto na língua portuguesa) e em relevo (por exemplo, o braille).

Linguagem verbal (oral)
- aparelhagens sonoras, telefone, rádio, computador, etc.

Linguagem verbal (audiovisual) - televisão, cinema, computador, etc.

Linguagem não verbal (gestual) - língua dos surdos e gestos dos polícias de trânsito.

Linguagem não verbal (codificada ou simbólica) - símbolos químicos, código de Morse, sinais de trânsito, símbolos usados na meteorologia, etc.

Linguagem não verbal (por sinais) - sinais de fumo e de luzes (visuais); tambores, sirenes e assobios (acústicos).

Linguagem não verbal (por acção) - lágrimas ou riso.



2. ARGUMENTAÇÃO E PERSUASÃO


A Comunicação Argumentativa

-Mais do que a mera transmissão de uma mensagem, a comunicação é um processo que visa levar os outros a aderirem às nossas ideias ou teses.

-O emissor, o código e a mensagem, o meio, o receptor e a resposta são os principais elementos do processo de comunicação. Todos estes elementos podem estar presentes no processo argumentativo.

EMISSOR - É a fonte da mensagem, aquele que emite a mensagem.

CÓDIGO - É o conjunto de regras, símbolos, palavras ou números através dos quais se constroi uma mensagem (aquilo que se quer transmitir), para que seja entendida pelo receptor.

MEIO ou CANAL (de transmissão da mensagem) - É a via pela qual circulam as mensagens. Aqui podem ocorrer interferências, que se chamam ruído. As interfrências podem estar ligadas ao emissor (perturbações na fala ou no tom de voz), podem ter a ver com o receptor (desatenção, dificuldade auditiva, etc.), podem relacionar-se com a mensagem (frases mal construídas ou confusas), com o código (uso de palavras ambíguas) e com o canal (interferências telefónicas, falhas na internet, fotocópia de má qualidade, etc.).

RECEPTOR - É aquele que recebe a mensagem e que a interpreta.

RESPOSTA - Consiste no retorno ou feedback, através do qual o emissor avalia a eficácia da sua comunicação.


-Grande parte da comunicação que realizamos está ligada à argumentação.

-Na verdade, no nosso dia-a-dia argumentamos com muita frequência, procurando convencer os outros a aceitarem os nossos pontos de vista, a aderirem às nossas teses, a agirem de acordo com o que nos parece mais razoável.

-Toda a comunicação argumentativa, sendo um processo onde se trocam mensagens, pressupõe uma língua em comum e o reconhecimmento pelo emissor e pelo auditório (pessoa ou conjunto de pessoas que recebe a mensagem) da dimensão racional da argumentação e da possibilidade de alteração do comprtamento por adesão a tal argumentação.

-Segundo Aristóteles, existem três dimensões da comunicação argumentativa: a do orador, a do auditório e a da mensagem, as quais ele denominou, respectivamente, de ethos, pathos e logos.

-A dimensão do orador (ethos) refere-se ao carácter do orador, à sua integridade e honestidade e, neste sentido, quanto mais um orador, através da palavra, se mostrar digno de confiança e de respeitabilidade, mais facilmente o auditório aceitará as suas teses. Se, através do seu discurso, o orador conseguir persuadir o auditório de que as suas qualidades morais são elevadas, mais o auditório terá em alta conta o carácter do orador e mais provavelmente se deixará convencer pelos seus pontos de vista.

-A dimensão da mensagem (logos) refere-se aos argumentos racionais organizados em discurso, articulados pelo orador para defender o melhor possível as suas ideias. Nesta medida, quanto melhores forem os argumentos, isto é, quanto mais coerência lógica tiverem, mais persuasivos se tornarão. Assim sendo, a força dos argumentos em si mesmos será a forma de o orador defender as suas teses e de obter a adesão do auditório, levando, eventualmente, a uma alteração de comportamentos.

-A dimensão do auditório (pathos) refere-se às emoções, paixões e sentimentos que o orador consegue despertar no auditório. Deste modo, levando-o à exaltação, à euforia, à revolta, ao sentimentalismo, à agressividade, etc., mais facilmente o orador conseguirá convencer o auditório a aderir aos seus objectivos. Neste caso, o orador deverá possuir alguns conhecimentos de psicologia, no sentido de melhor estimular as emoções dos ouvintes para mais eficazmente os persuadir.






Argumentar e demonstrar

-No nosso quotidiano argumentamos frequentemente, mas não utilizamos os mesmos argumentos para demonstrar um problema matemático ou um problema social.

-Assim, temos que distinguir a argumentação da demonstração.

-A demostração parte de proposições indiscutíveis e a argumentação parte de proposições discutíveis.

-A demonstração é impessoal, não depende da pessoa que a apresenta nem do contexto em que é apresentada; por outro lado, a argumentação depende muito de quem e como argumenta, da situação em que ocorre e do objectivo que a argumentação tem em vista.

-Enquanto a demonstração não pressupõe uma relação directa entre indivíduos, a argumentação é marcada pela relação entre orador e auditório.

-A demonstração aplica-se especialmente à matemática e à lógica, aplicando~se a argumentação sobretudo nas ciências sociais e humanas, em áreas como a ética, a política, o direito, etc.

-A demonstração baseia-se na lógica formal, onde só existe verdade ou falsidade, não havendo lugar ao meio termo; ao invés, a argumentação baseia-se na lógica informal, em que não se está somente no domínio do verdadeiro ou falso mas também no do plausível ou provável.

-Na demonstração usa-se uma linguagem abstracta e simbólica, enquanto a argumentação usa a linguagem natural, isto é, a linguagem do dia-a-dia.

-Demonstração e argumentação não possuem a mesma lógica, procurando a demonstração estabelecer a verdade de uma proposição de um modo evidente necessário, enquanto o objectivo da argumentação é persuadir e convencer um auditório.

-Onde a argumentação e o discurso persuasivo se revelam particularmente importantes é nos tribunais, visto que é através do confronto de argumentos que se chega a uma decisão. Também na política, onde se busca a adesão dos eleitores, e na publicidade, onde se procura promover a compra de um produto, o discurso argumentativo se revela bastante importante.

3.OPINIÃO PÚBLICA E PUBLICIDADE

Televisão, publicidade e espírito crítico

-A televisão nasceu em meados do século XX e está hoje presente em quase todas as casas de muitos países do mundo.

-O papel desempenhado pela televisão é tal que o seu impacto na vida das pessoas é considerado como escola paralela.

-A televisão tem uma forte influência na formação das nossas atitudes e comportamentos.

-O triunfo das imagens na chamada aldeia global e a actualidade (o directo) da informação, isto é, o seu carácter imediato, parecem imprimir um ritmo alucinante que ameaça o espírito crítico e a capacidade de análise e de reflexão do espectador (consumidor?) relativamente à informação.

-Assim, os media constituem hoje o chamado quarto poder.

-Quem possui o domínio da informação tem ao seu dispor enormes possibilidades que, sem existência de um controlo rigoroso, influenciam poderosamente a opinião pública.

-Muitos meios de comunicação, especialmente a televisão, promovem a distracção e alienação das pessoas, transmitindo intensivamente telenovelas, desporto, concursos degradantes ou imagens de fanatismo religioso. Por outro lado, apresentam-se "heróis" efémeros, que são meros produtos artificiais, e a publicidade surge em larga escala.

-Deste modo, verificando-se uma quase total ausência de programas de carácter cultural, estes meios de comunicação fomentam a degradação do indivíduo enquanto ser pensante e possuidor de espírito crítico, contribuindo em larga medida para a formatação da sua mente.

-Em qualquer democracia o pluralismo dos media é um sinal de vitalidade e maturidade cívica, visto que, desta forma, diferentes pontos de vista podem encontrar expressão. No entanto, devido à centralização dos media em poucos e poderosos grupos informativos, podemos questionar-nos acerca da liberdade em televisão.

-Será que a televisão nos mostra tudo que poderia mostrar? Será que esconde informação? Com que critérios se decide o que mostrar e não mostrar? Será que existem pressões políticas e amizades ou conveniências que se fazem sentir na abordagem das notícias?

-Sabemos também que a publicidade é um negócio de milhões a que os meios de comunicação estão ligados. Podemos igualmente questionar-nos a este respeito. Será a publicidade uma forma de manipular e denegrir o próprio ser humano?

-O criador da publicidade da Benetton, Olivieri Toscani, pensa até que a publicidade pode ser vista como um crime contra a humanidade.

-Podem enunciar-se alguns crimes que, de certa forma, é possível atribuir à publicidade:

crime de inutilidade social (às grandes empresas falta o sentido moral de intervir socialmente no sentido de combater flagelos como a sida, o alcoolismo ou o racismo);

crime da mentira (a publicidade promete juventude, beleza, virilidade, sucesso, etc., quando muito dificilmente tais objectivos serão atingidos no uso dos produtos publicitados);

crime contra a inteligência (a publicidade não valoriza a inteligência do consumidor, antes explora o seu inconsciente e as suas emoções mais básicas);

crime de persuasão oculta (pelo uso de mensagens subliminares, que o consciente não detecta, mas que o inconsciente armazena);

crime da adoração de ídolos (porque leva à imitação dos modelos apresentados);

crime de exclusão e de racismo (na publicidade só entram modelos atraentes e pertencentes às comunidades maioritárias);

crime contra a paz civil (pois transmite uma ideia de felicidade, que se afigura inalcançável, e, por isso, geradora de frustração, competição, depressão ou mesmo delinquência);

crime contra a linguagem (pelo uso de slogans, frases feitas e frases curtas que nada dizem ou complicam o sentido das palavras).



A Opinião Pública

-Chama-se opinião pública ao juízo dos cidadãos sobre qualquer assunto da actualidade.

-Os governos e a oposição têm em conta a opinião pública para tomar decisões ou defender pontos de vista.

-A opinião pública pode revelar conhecimento sobre um assunto, mas também pode corresponder a uma total ignorância, estando sujeita aos efeitos da manipulação.

-A opinião pública tem a sua importância mas não se sobrepõe ao voto dos cidadãos.

-A formação da opinião pública é um fenómeno complexo que está dependente de vários factores, nomeadamente os rumores, os grupos, a comunicação interpessoal, os guias de opinião e a nossa tendência a escolher a informação que está de acordo com a nossa opinião.

-A formação e manipulação da opinião pública, o poder da publicidade e dos grandes grupos que controlam os meios de comunicação, a ligação de todos estes mecanismos ao poder político ou aos partidos que se vão alternando no poder, podem levar-nos a uma reflexão bem interessante e a deixar no ar as seguintes questões:

Será que a opinião pública é mesmo aquela que se publica nos meios de comunicação?
A quem convém manter os cidadãos mal informados?
Porque é que não existem mais programas culturais e de informação e os que existem são todos semelhantes?
Porque é que o poder político e o poder dos grupos que controlam os meios de comunicação tem estado na mão de tão poucos?
Porque é que, em termos políticos e comunicacionais, quase não se debatem temas que interessam aos mais desfavorecidos e às minorias?