segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ESTRUTURA FAMILIAR E DINÂMICA SOCIAL



A Família: Universalidade e Formas

A família como instituição

- A família é um fenómeno biológico e social, sendo também a base da organização das sociedades.

- Os grupos familiares produzem e impõem normas e regras, daí que a família seja vista como uma instituição fundamental.

- Sendo a família uma união de pessoas, com ligações e comportamentos específicos, ela assume-se como universal.

- Apesar da diversidade no tempo e no espaço das formas de vida familiar, os etnólogos afirmam que existe uma regra universal: a proibição do incesto.

- A sexualidade e a reprodução, bem como a necessidade de alimento e segurança são aspetos essenciais que conduziram à formação da família.

- As relações de parentesco sempre foram importantes no seio das sociedades e na sua organização.

- No entanto, com as novas tecnologias e técnicas de reprodução assistida (doação de óvulos ou de espermatozóides, ou a chamada "barriga de aluguer") que hoje existem, a noção de parentesco sofre alterações e pode ser alvo de questionamento.

Critérios que permitem diferenciar as estruturas familiares

- Podemos referir os seguintes critérios para diferenciar as estruturas familiares:

1. casamento ou aliança;
2. filiação;
3. autoridade;
4. autonomia.

1- No que respeita ao casamento ou aliança, podemos mencionar a aliança exogâmica e a poligâmica.

Numa aliança exogâmica a escolha do cônjuge não é feita pelo indivíduo mas pela sociedade. A China Antiga, a sociedade indiana e a comunidade cigana fornecem-nos exemplos destes casamentos combinados.

Nalgumas sociedades tradicionais existe a poligamia, devendo distinguir-se a poligenia (um homem com várias mulheres, prática que ainda se verifica nos povos muçulmanos) da poliandria (uma mulher com dois ou mais maridos, prática que ainda ocorre em certos povos da Índia).

Em sociedades mais recentes existe a monogamia (um homem com uma mulher e vice-versa).

2- No que toca à filiação, podemos falar em filiação patrilinear, em que só são parentes os que descendem da linha paterna, e podemos falar em filiação matrilinear, em que a autoridade pertence aos homens do grupo social da mãe.


A filiação bilinear é a que existe na nossa sociedade, em que todos os descendentes recebem o nome do pai e da mãe e em que todos podem também receber a herança disponível.

3- Relativamente à autoridade na família, pode referir-se a família patriarcal (dirigida pelo homem mais velho); a família matriarcal (onde a mulher mais idosa exerce a autoridade); e também a família gerontocrática (dirigida por um conselho de anciãos).

4- No que respeita ao grau de autonomia das famílias umas em relação às outras, temos as famílias autónomas (muito raras, visto que produzem tudo o que os seus membros necessitam); mas temos também as famílias interdependentes ou não autónomas (nas quais se verifica uma mútua dependência de venda e compra de bens e serviços).

- Assim, de acordo com os critérios apresentados, pode afirmar-se que em Portugal predomina a família monogâmica, sendo a residência num novo local que não a casa dos pais, em que a autoridade é partilhada por pai e mãe (embora a autoridade paternal ainda sobressaia), tratando-se, contudo, de um tipo de família não autónoma.


Transformações dos modelos familiares

-Alguns aspectos que, ao longo do tempo, foram mudando no que respeita à família:



. a família como unidade de produção económica foi desaparecendo;

. a autoridade paterna foi diminuindo;



. a natalidade diminui;



. a esperança média de vida aumenta;

. aumenta bastante o número de divórcios;


. as uniões de facto tornam-se muito presentes;


. as mulheres passam a trabalhar fora de casa;


. os filhos entram em grande número no jardim-de-infância;


. aumenta a incerteza em relação ao futuro e à estabilidade profissional;


. diminui o número de casamentos, mas aumenta o casamento civil;


. aumenta o número de filhos fora do casamento;


. as pessoas casam mais tarde e fazem-no de forma livre e afectuosa, não tanto por conveniência.


- A chamada família tradicional, que está ligada à sociedade industrializada actual, é composta por pai e mãe casados e seus filhos biológicos ou adoptados. Contudo, a par desta família tradicional surgem diversas famílias que podemos chamar "modernas":


. famílias monoparentais (um adulto e filho(s), devido a divórcio ou separação, morte do cônjuge, mãe solteira ou opção de um dos progenitores);

. famílias recompostas (união ou casamento de pessoas já com filhos, de que só um dos cônjuges é pai ou mãe);

. famílias homossexuais (casal formado por pessoas do mesmo sexo);

. jovens casais que não partilham o mesmo espaço (vivem em casa dos pais, são os chamados "filhos-canguru").


- Hoje vemos as relações de parentesco baseadas em laços livremente escolhidos (que têm origem na vida em comum e nos afectos partilhados) ganharem terreno às relações de parentesco fundadas nos laços de sangue.


- As transformações e mudanças que ocorrem na família estão ligadas a outras mudanças sociais (isto é, há uma influência mútua), por exemplo, o Direito, a Economia, os costumes, o progresso tecnológico, a Biologia, etc., o que mostra que a família continua a ser uma instituição social fundamental.


. O Direito produziu legislação sobre o divórcio, o aborto ou a contracepção;


. A Economia levou a que as mulheres passassem a trabalhar fora de casa;

. A mudança nos costumes trouxe novas ideias e atitudes sobre a igualdade, o individualismo, a busca de felicidade própria, etc.;

. O progresso tecnológico trouxe novas formas de lazer, de comunicar e de controlar os passos do outro;

. A biologia forneceu a pílula e outros métodos contraceptivos.

- No entanto, a família moderna permanece uma instituição social fundamental.

Mudanças nos papéis familiares e parentais


- Ao longo dos tempos a família tem sofrido bastantes alterações.


- A mudança de uma sociedade agrária para um sociedade industrial e urbana e a mudança de mentalidades que aconteceu nas últimas décadas do século XX são fatores determinantes para explicar as transformações ocorridas na família.


- Relativamente a mudanças nos papéis familiares podem apresentar-se as seguintes:


. a família torna-se menor;

. generaliza-se o trabalho feminino;


. aumenta a independência da mulher;


. a figura jurídica do chefe de família desaparece;


. a relação entre homem e mulher baseia-se cada vez mais na igualdade;


. o homem e a mulher desempenham ambos as atividades domésticas;


. o homem e a mulher são ambos responsáveis pela educação dos filhos;


(contudo, nem sempre esta partilha se verifica)


. acontece uma mudança de valores, tornando-se os sentimentos mais importantes do que as conveniências ou as hierarquias;

. verifica-se uma maior liberdade de expressão;


. há mais partilha de sentimentos e afetos;


. há mais autonomia e respeito pelas diferenças;

. há mais capacidade de adaptação ao outro e à sua realização pessoal;


. não há casamento só por motivos sexuais e a procriação obedece a um planeamento familiar.


- Relativamente a mudanças ocorridas nos papéis parentais podemos referir as seguintes:


. mudanças de valores na sociedade levaram a que hoje se valorize mais o imediato, o prazer, o individualismo e a contestação à hierarquia;


. tal mudança de valores leva os mais velhos (frequentemente) a afirmar que se verifica uma ausência de valores nos mais novos;


. há encarregados de educação que não aceitam as inovações educativas e defendem o autoritarismo do passado, há encarregados de educação que deixam andar e não se preocupam em educar de acordo com os valores que defendem, e há também encarregados de educação que se adaptam a novos valores e conseguem encontrar um equilílibrio na educação e relação com os educandos;


. perante as mudanças (por vezes drásticas e muito rápidas) o que se deve privilegiar é o diálogo, a abertura e a capacidade de negociação;

. assim, o que se defende como nova atitude para os encarregados de educação (e para os educandos também) é: ouvir e respeitar aqueles com quem vivemos, amar sem coagir, criticar sem destruir, aceitar a diferença, respeitar o outro mesmo não aceitando a sua opinião, compreender o que o outro sente, etc.


- O papel do encarregado de educação deve passar muito por saber ouvir e, após ouvir os filhos, os encarregados de educação devem tomar decisões, orientar e traçar limites.


- As decisões devem ter em vista quatro princípios fundamentais: o sentido do outro, a responsabilidade, a dimensão ética e o conceito de justiça ligado ao amor e à disciplina. Estes são aspetos fundamentais que o adulto deve transmitir aos mais novos.


- Hoje existem até os programas de educação parental, que procuram promover o equilíbrio entre o amor e a disciplina, estimular o envolvimento dos pais e educadores em áreas de interesse dos mais novos, como a relação com a escola e com os professores e a influência dos amigos, bem como ajudar a lidar com comportamentos de risco dos filhos.


- É importante, hoje, que os educadores percebam que devem dar orientações claras sobre o comportamento, dar suporte às iniciativas dos mais novos e estimular a descoberta.

FAMÍLIA E SOCIEDADE


- A família desempenha funções na sociedade (para lá das funções básicas: sexual e reprodutiva);


- Podemos dizer que as funções da família são as seguintes: renovação da população, lugar de trocas e de laços afetivos, compra de bens, presta serviços e ajudas, transmite uma língua, cultura e valores, transmite uma herança aos filhos.


- Por outro lado, a família é o agente de socialização mais importante, óu seja, é o local onde o indivíduo aprende normas, valores, crenças, comportamentos, atitudes, ofícios, a desempenhar tarefas, hábitos, etc., que lfe permitem viver em sociedade.

- Apesar de os sentimentos terem forte presença nas relações conjugais, a formação de casais é influenciada pela proximidade geofgráfica, por pertença ao mesmo meio social, por se ter o mesmo nível intelectual e por se partilhar uma identidade espiritual (religião ou ideias).

- Isto mostra que na formação do casal ainda está presente a lógica do grupo social a que se pertence.


Família, economia e afetos


- A família é hoje uma unidade de consumo de bens e serviços produzidos no seu exterior.


- Deste modo, a família é um alvo da publicidade, especialmente as crianças.


- As crianças e jovens condicionam as compras familiares (alimentos, vestuário, tecnologias, automóvel, férias, brinquedos, etc.).


- A família é também um grupo de ajuda moral, afetiva e económica (pais e avós apoiam e dão conselhos, pagam os estudos e as férias dos filhos).


- As dificuldades em arranjar emprego vieram dificultar a autonomização dos jovens, os quais ficam mais tempo dependentes da família.


- Assim, vai sendo cada vez mais adiada a saída dos jovens de casa da família e retardada a entrada na vida adulta.


- Nesta medida, temos os chamados novos "adulescentes" (adultos adolescentes). São adultos em idade, mas não têm a autonomia de um adulto.


- Nas famílias de hoje parecem ter-se rompido os laços entre os mais novos e os mais velhos.

. As crianças entram no esquema de "escola a tempo inteiro".

. A escola quase substitui a família na função de educar.

. Os idosos estão cada vez mais sujeitos ao abandono e à solidão.

. As famílias têm cada vez menos tempo e condições para cuidarem dos seus idosos.

. Os lares e centros de dia substituem a família no acompanhamento aos mais velhos.

- Ora, tudo isto é negativo, e o que deve fazer-se é um esforço para o reencontro de gerações, partilhando-se tempo, afeto e experiências e valorizando-se o papel de crianças, jovens, adultos e idosos.

- A evolução das famílias e das sociedades dependerá sempre de como tratarmos as nossas crianças e os nossos idosos.

domingo, 24 de abril de 2011

A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA

O Homem e a Política


-Aristóteles (384 a. C. - 322 a. C.) afirmou que o homem é um animal político, isto é, um ser cuja natureza é viver em comunidade na polis.

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Assim, torna-se óbvio que aquele autor defenda que deve haver uma organização política que facilite a vida social.

-Aristóteles escreveu sobre a política, sugerindo que ela deve preocupar-se com a ética, a felicidade de todos e a vida boa do cidadão.

-Contudo, hoje liga-se a política à tomada do poder e ao governo de um Estado.

-No entanto, pode-se defender que a política diz respeito não só à relação com o poder mas também a conceitos como a liberdade, a igualdade, os direitos dos cidadãos, a subordinação e a dominação, as relações sociais, etc.

-Se pensarmos na história humana podemos dizer que, ao longo dos tempos, houve diferentes modos de organização social, isto é, de organização política.

-Antes do aparecimento dos Estados, as sociedades organizaram-se, por exemplo, em tribos, em grandes famílias ou clãs, onde o homem mais velho detinha normalmente o poder e o passava depois ao filho primogénito. Mas, com o tempo, este tipo de organizações entrou em declínio.



As Cidades-Estado


-Foi na Grécia, em Atenas, que surgiu o regime político conhecido como democrático.

-Este tipo de regime serviu de base às democracias que hoje conhecemos.

-No século VIII a. C. surgiram as cidades-estado, que eram comunidades de homens livres, os cidadãos, e que possuíam leis próprias e governos próprios.

-No século V a. C., em Atenas, a democracia é o sistema de organização social que passa a vigorar.

-Neste sistema democrático surgido em Atenas, todos os cidadãos, homens com mais de vinte anos, descendentes de atenienses e com o serviço militar cumprido, podiam participar em órgãos de poder e os cargos políticos estavam sujeitos à rotatividade.

-Em Atenas, a democracia tinha a participação directa dos cidadãos, por isso se tratava de uma democracia directa. As decisões eram tomadas directamente, tendo cada cidadão direito de expressão e de voto.

-Actualmente, as democracias não são directas mas representativas, pois os eleitores elegem os seus representantes, e estes é que intervêm e votam.



O Império Romano


-Em Roma, depois de ter existido uma monarquia, que foi derrubada em 509 a. C., foi implantada a República.

-No entanto, em 27 a. C., Octávio torna-se imperador e concentra em si todos os poderes (político, legislativo, executivo, judicial, militar e religioso).

-Surge assim o regime imperial, em que todas as instituições políticas estão submetidas ao imperador, sendo este também visto como sacerdote supremo, o que obrigava ao culto ao imperador.



O Feudalismo


-Outra forma de organização social que surgiu na Europa foi o feudalismo.

-Devido à instabilidade resultante de invasões de muçulmanos, vikings e húngaros a partir do século VIII, os habitantes das cidades europeias foram-se refugiando no campo, colocando-se ao serviço de grandes senhores, proprietários de vastos territórios.

-Esta situação veio reforçar o poder dos grandes proprietários e debilitar o poder real, o qual se mostrou frágil na defesa da população.

-Deste modo, a realeza vai perdendo prestígio, principalmente entre os séculos IX e XII, e aumenta o poder dos grandes senhores do clero e da nobreza, que assumem poderes que antes pertenciam aos monarcas.

-Os senhores feudais passaram a ter exército próprio, a aplicar a justiça, a cobrar impostos e cunhar moeda, a receber rendas, etc.

-Os nobres mais poderosos concediam terrenos a outros menos poderosos, os quais ficavam ao serviço em troca de protecção.

-Nesta época verificou-se um certo predomínio da economia rural e a decadência do mundo urbano e mercantil.



A Visão de Maquiavel


-Em 1513, o italiano Maquiavel (1469-1527), no seu livro O Príncipe, apresenta uma nova visão do que é a política, vendo-a como a arte de conquistar, exercer e manter o poder.

-Na concepção de Maquiavel, a política deixa de ser vista como algo virtuoso e já não corresponde a uma preocupação de mudar o indivíduo ou de melhorar a vida social.

-A política é, para o autor florentino, a busca de glória, riqueza e poder, e não importa o que o governante faça, desde que seja para manter-se como autoridade máxima.

-Os poderosos limitam-se, portanto, a fazer tudo o que desejam, sem necessidade de apresentação de justificações, manipulando a opinião pública e procurando manter o poder.

-A visão de Maquiavel revela, evidentemente, uma interpretação bastante pessimista da natureza humana.

-Maquiavel afirma que o governante deve saber ser dissimulado (actor, manipulador, enfim, mentiroso) desde que isso sirva a sua apetência de poder. Contudo, quando tiver de ser dissimulado, o governante não deve dar ideia de que o é (a mentira e a encenação ao serviço da política).

-Segundo Maquiavel, o governante deve aparentar possuir certas virtudes (clemência, benevolência, humanidade, rectidão e religiosidade). No entanto, não é necessário que as possua efectivamente, mas deve aparentar possuí-las.

-Maquiavel afirma mesmo que pode ser prejudicial, para quem faz política, possuir aquelas virtudes, embora o melhor seja sempre aparentar tê-las.

-Mas Maquiavel vai ainda mais longe ao referir que o político deve estar preparado para, caso lhe convenha, agir ao contrário daquelas virtudes.



Os Conceitos de Estado e de Nação


-O conceito de Estado diz respeito a um conjunto de pessoas organizadas politicamente num território com leis comuns.

-A lei fundamental do Estado é uma Constituição e existe um governo.

-O Estado tem uma função de coordenação, que exerce através do Direito e da Constituição; e tem uma função de subordinação, em que disciplina o poder político, pois se o poder político não se disciplinar não há sociedade política nem Estado.

-O conceito de Nação está ligado a aspectos como a tradição, a cultura, a religião, a língua, a origem étnica, etc.

-O conceito de Nação engloba os aspectos históricos e promove uma consciência de união dos indivíduos em torno de um objectivo comum, apesar da singularidade de cada membro da Nação.



Associações Plurinacionais e Organizações Não-Governamentais (ONG)


-A globalização e o desenvolvimento dos meios de comunicação e dos transportes, bem como a tomada de consciência de preocupações comuns aos diferentes povos, levaram ao aparecimento de associações políticas plurinacionais.

-Os direitos humanos e as preocupações ambientais contribuíram também para o aparecimento de associações plurinacionais.

-A União Europeia, a Mercosul e o G-8 mostram que a independência dos Estados tem vindo a diminuir, tendo estes que fazer, muitas vezes, o que os órgãos internacionais decidem.

-As ONG apresentam-se hoje como estruturas regionais ou mundiais que defendem vários tipos de interesses.

-As ONG surgem, em muitos casos, devido à desresponsabilização política e tentando pressionar os governos a defenderem interesses humanistas, ambientais, ou de paz, por exemplo.

-A Cruz Vermelha e os Médicos do Mundo desenvolvem actividades de cariz humanitário; a Amnistia Internacional preocupa-se com os direitos humanos; a Green Peace defende a natureza, o ambiente e as espécies, por exemplo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Tópicos de apoio ao estudo do tema: DE ALEXANDRIA À ERA DIGITAL

A VIDA E A ESCRITA

- Ao longo da História o Homem escreveu em vários suportes: pedra, argila, madeira, tela, seda, couro, osso, tijolo, papiro e pergaminho. Hoje usa o papel e o teclado (vendo-se os caracteres no ecrã do telemóvel ou do computador).

- A escrita não é usada só para transmitir um significado, ela é vista também como uma manifestação artística usada para fins decorativos.

- A arte de escrever com perfeição chama-se caligrafia.

- Se os antigos diziam que as palavras (ditas) leva-as o vento, a verdade é que as palavras impressas dificilmente se apagam.

- A palavra escrita permite que o Homem ultrapasse as suas experiências pessoais e o seu mundo limitado e conheça as experiências de outros homens e outras épocas, descobrindo diferentes modos de vida e de pensamento. A escrita permite fixar histórias, saberes e acontecimentos de modo a que as gerações vindouras possam ter acesso a eles. A escrita torna possível o rigor, a descrição de situações, o acumular de informação e de conhecimento e a aprendizagem. Com a escrita, o Homem vai aprofundando a sua racionalidade e o seu pensamento estreita as ligações com a palavra escrita, o que permite aumentar a coerência e a articulação lógica dos pensamentos. Tudo isto vai ter influência na comunicação e nas relações humanas, na organização das comunidades, nas trocas e no comércio, na justiça, nos acordos e tratados, na vida diária das populações e na comunicação com outros povos.

- É bastante difícil imaginar a nossa vida sem a escrita: códigos de estrada, leis, regras e normas, conhecimentos, informações de todos os tipos, publicidade, ensino e estudo, livros, jornais, revistas, internet, sms, relatórios, preços, instruções, correspondência, etc., são alguns dos exemplos onde a escrita está presente nos nossos dias.

- A escrita permitiu transformar as relações entre as pessoas, as trocas económicas e comerciais, o modo e a velocidade com que acedemos ao conhecimento e à informação, as relações entre instituições e países, etc.


A HISTÓRIA DA HUMANIDADE E A ESCRITA

- Podemos dizer que a escrita existe em todos os países. Sabemos também que há diferentes caligrafias, isto é, diferentes tipos de letras, diferentes alfabetos. Alguns exemplos são a escrita dos países árabes e dos países do leste europeu, a escrita chinesa e japonesa, a escrita usada por nós, etc.
Embora se possa afirmar que há certo tipo de comunicação em outras espécies, não deixa de ser verdade que só a espécie humana criou e usa a escrita. Assim, será fácil concluir que o Homem não se resignou à utilização da fala e de outras formas para comunicar, tendo sentido necessidade de criar uma forma de comunicação diferente de todas as outras. A escrita permite a comunicação à distância, permite registar informação, impede o esquecimento e combate a ignorância, possibilita o rigor e a objetividade, evitando equivocos e confusões.
À medida que a História da Humanidade avança vão aumentando as atividades e os ofícios, vão aumentando as trocas e transações, os negócios e os acordos, as normas e leis, os tratados e conhecimentos, etc., e  a escrita permite o registo duradouro de tudo que diz respeito aos aspetos mencionados. De facto, a escrita torna-se bastante necessária à medida que os negócios, o comércio, a informação e os conhecimentos vão aumentando, pois ela fixa com exatidão tudo aquilo que o Homem pretender. Efetivamente, é nos livros que encontramos os conhecimentos, relatos e histórias que foram ocorrendo ao longo da História da Humanidade e é deste modo que as gerações vindouras tomam conhecimento credível do que de mais importante ocorreu e foi descoberto no passado.
Assim, podemos salientar que a palavra escrita tem uma forte ligação com a realidade. É como se a escrita substituísse as coisas, os acontecimentos, as ideias, as intensões, isto é, a escrita torna possível nomear a realidade, escrever e ler a realidade, mas ela não é a realidade. Com a escrita, o Homem pode escrever sobre o que é material e imaterial, visível e invisível, e pode até escrever sobre o que imagina e sobre o que não existe.
Pode, pois, deduzir-se que a palavra escrita é muito importante, não só para o indivíduo humano e para a organização, coerência, sequência lógica e rigor do seu pensamento, mas também se revela importantíssima em termos de organização das sociedades, fundamentalmente ao nível das leis e das normas que regem uma sociedade. De igual modo, a escrita é também importante nas relações entre os povos e as culturas que habitam o nosso planeta.



BREVE HISTÓRIA DA ESCRITA

- As primeiras gravuras em osso e as pinturas nas paredes das grutas podem ser consideradas o início da escrita. Estas representações pretendiam fixar no tempo imagens que contam um acontecimento ou uma história relevante.

- Fixar um acontecimento, acreditavam os nossos antepassados, permitia-lhes apropriar-se dele, dominá-lo, deter a sua memória e torná-la presente. Assim, o Homem deixou de viver apenas num registo instintivo, tentando dar um grau de permanência, ou mostrando a existência de acontecimentos interessantes registando-os da forma possível.

- O estádio inicial da vida da escrita, há cerca de 40 000 anos, caracterizou-se pelo uso do desenho (chamado pictograma) como auxiliar de memória.

- Os pictogramas representam coisas, situações, acontecimentos ou histórias sem palavras.

- Posteriormente, os pictogramas especializam-se e cada um irá representar uma palavra, objecto, noção ou ideia.

- No fim do IV milénio a. C. surgem as primeiras tentativas de escrita, em Uruk, na Mesopotâmia. A sedentarização dos agricultores, o avolumar do comércio e dos negócios levam a que se represente em placas de argila tudo que é transaccionado, isto é, tudo que é comercializado.

- Os Sumérios foram os inventores deste tipo de escrita, que se denomina cuneiforme e que evoluiu durante mil anos.

- Os desenhos de objectos vão-se estilizando, tornando-se mais abstractos e semelhantes a letras.
- Por volta de 5000 a. C. os egípcios elaboram o seu sistema de escrita, sendo esta constituída por hieróglifos (de hieros, «sagrado», e gliphein, «gravar»), estando a sua origem ligada à celebração de feitos militares e rituais religiosos.
- Na China encontra-se outro importante sistema de escrita. As inscrições mais antigas são de textos divinatórios e encontram-se em fragmentos de osso, marfim e carapaças de tartaruga.
- Hoje, o alfabeto usado maioritariamente no Ocidente foi legado pelos Fenícios. Era uma escrita composta por 22 consoantes.
- Os Gregos, tendo relações comerciais com os Fenícios, vão acrescentar ao alfabeto fenício as vogais, cabendo depois aos Romanos a sua divulgação.
 
 
 
A IMPRENSA COMO MEIO DE MULTIPLICAÇÃO E DIVULGAÇÃO DO LIVRO: A GALÁXIA DE GUTENBERG
 
 
- A linguagem e a comunicação são inerentes à espécie humana, contudo, o modo de nos expressarmos e os meios utilizados foram variando ao longo dos tempos.
- A necessidade de comunicar, o que comunicamos e como o fazemos, dependem das épocas históricas e do estádio de desenvolvimento cognitivo e psicológico do ser humano.
- A pintura nas cavernas, os desenhos em ossos, o livro, o jornal, a net, a sms, a oralidade, a escrita, são alguns dos pontos essenciais de um percurso que o ser humano construiu ao longo de milénios.
- O aparecimento progressivo da escrita nas civilizações transformou a realidade humana e, com a sua prática a aumentar, também os suportes da escrita se vão alterando.
- O papiro (planta cortada, batida e humedecida) era usado, em rolos, pelos Antigos Egípcios; o pergaminho (pele curtida de vitela, carneiro ou cabrito) era usado na Grécia por volta do século III a. C. Estes dois materiais são fundamentais para a história do livro.
- No século I d. C., os chineses inventaram um tipo de papel, que a Europa só virá a conhecer no século XII, através dos Árabes. Assim, surgem as primeiras fábricas de pasta de papel no sul da Península Ibérica, as quais se irão espalhar por toda a Europa a partir do século XV.
- Produzir dois textos iguais tornava obrigatória a realização de cópias. Os chamados Escribas, no Antigo Egipto, e os monges copistas, na Idade Média, dedicavam-se a esse ofício.
- Na Idade Média, com o desenvolvimento do ensino e das Universidades, o livro, a leitura, a escrita e o comentário de textos tornam-se essenciais.
- A necessidade da cópia, mais rigorosa e em maior número, aumenta. No entanto, o processo utilizado não facilitava tal tarefa.
- Assiste-se também ao crescimento das cidades, aumentam as trocas comerciais, as viagens e a circulação de pessoas e bens. Ocorrem transformações sociais e económicas, a informação e o conhecimento aumentam e ganham enorme importância e, assim, é cada vez mais necessária a criação de instrumentos que procedam à sua posse, transmissão e divulgação.
- A invenção de Gutenberg (1400-1468) transformou a publicação e divulgação do livro e possibilitou o aparecimento da imprensa.
- A reprodução mecânica da escrita criada por Gutenberg permitia realizar em poucas horas o trabalho que os copistas demoravam meses a fazer.
- Usando blocos de letras individuais em metal, as letras necessárias para cada página de texto eram dispostas num caixilho de madeira e colocadas, em seguida, numa prensa. Após serem tintadas as letras, o papel era comprimido sobre elas com uma prensa de madeira.
- A invenção de Gutenberg permite imprimir folhas separadas (e repetir o processo) com um conteúdo mais actual e menos profundo do que o de um livro. Todos os meses, todas as semanas ou todos os dias se verifica a saída de publicações, uma espécie de jornais que dão notícias de acontecimentos recentes, que dizem respeito à vida diária das populações e que podem ser lidos por muitas mais pessoas e em diferentes lugares. Assim, as populações têm possibilidade de estar informadas sobre os acontecimentos mais relevantes que vão ocorrendo.
- Ao longo do percurso evolutivo da imprensa, muitas transformações aconteceram: mudanças de formatos, de conteúdos, de destinatários, etc.

 
A ALDEIA GLOBAL
 
- O avanço das descobertas científicas e a investigação intensa nas novas tecnologias revolucionou o nosso modo de vida.
- As formas de comunicar e de difundir informação e conhecimento alteraram-se profundamente.
- A escrita deixou de ser o único meio de difusão de cultura e informação, pois ao longo do século XX surgiram o cinema, a rádio, a televisão, a internet, o CD, o satélite, o telemóvel etc.
- Hoje, a cultura, o conhecimento e a informação estão ligados a um mundo digital e multimédia, que alguns autores comparam à invenção da imprensa por Gutenberg.
- A informática permite aceder a grandes quantidades de informação e, deste modo, a rádio, a televisão e a imprensa tornam-se meios de comunicação de massas (mass media), e o mundo torna-se uma "aldeia global", onde a informação circula mais rápido e muito se sabe mais facilmente sobre o que acontece em qualquer parte do mundo. A informação entra pelas nossas casa dentro e está muito mais disponível em qualquer lugar (cafés, bibliotecas, escolas, papelarias, etc.).
- O espírito original da imprensa ainda se vai mantendo: informar e transmitir notícias. Utilizando um discurso claro, simples e objectivo, com frases curtas e directas, a imprensa tenta fazer ver e viver o acontecimento, tentando transformar o leitor numa espécie de testemunha indirecta.
- A imprensa torna-se num instrumento fundamental de divulgação dos problemas e acontecimentos planetários.
- O telefone, a televisão, a rádio, o cinema, a revista ilustrada, o jornal ocupam um lugar importante ao longo do século XX, pois permitem a circulação de informação, o conhecimento de outras culturas, a divulgação de acontecimentos históricos, bem como uma certa atualização das pessoas relativamente às notícias mais importantes do seu país e do mundo.
- Hoje em dia, os serviços de informação dispõem de meios técnicos bastante sofisticados, o que torna possível transmissões em directo de qualquer ponto do planeta. Este tipo de comunicação global deve-se aos satélites.
- Os novos serviços televisivos vão solicitando gradualmente a participação do espectador, abrindo a porta a uma televisão feita por cada um à sua medida. Assim, aceder aos conteúdos televisivos será uma tarefa cada vez mais individualizada, gerida de acordo com os gostos e interesses de cada um.
- Contudo, o livro, pelo seu prestígio, e a imprensa, pelo papel que desempenha na nossa visão do mundo, continuam a ser dos mais importantes suportes da escrita. No entanto, a internet vai-se afirmando como suporte de informação, permitindo uma rápida divulgação de acontecimentos e partilha de informação, para além de possibilitar uma comunicação extremamente rápida e eficaz entre instituições, organismos e pessoas de qualquer parte do mundo.

- A internet veio revolucionar a comunicação e, deste modo, o mundo torna-se uma espécie de aldeia global, onde "tudo" se sabe, "tudo" se procura, "tudo se divulga," tudo" se vende e compra, onde se disponibiliza todo o tipo de conteúdos e onde a interatividade se tornou bastante fácil e frequente.

- Finalmente, pode ainda fazer-se referência a um aspeto importante relativo à escrita; é que a escrita não é algo de estático, é dinâmica, vai mudando ao longo do tempo, sofre alterações, não só devido aos hábitos da população, mas também devido à evolução científica e tecnológica, facto que provoca o aparecimento de novas palavras e de estrangeirismos (palavras de outras línguas que passam a fazer parte da nossa). As mudanças sociais e culturais conduzem também ao aparecimento de novas expressões e conceitos, não só devido à influência dos meios de comunicação social (nomeadamente a televisão, com os concursos, as telenovelas, etc.), mas também do cinema, da política, ou do desporto. A língua de um povo vai-se alterando e a escrita vai também sofrendo alerações ao longo dos tempos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TÓPICOS DE APOIO AO ESTUDO DO TEMA: A COMUNICAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DO INDIVÍDUO

1. COMUNICAÇÃO: INEVITABILIDADE E ELEMENTOS


Comunicar e informar

-Quando pensamos na palavra comunicar, imediatamente percebemos que comunicar é algo que faz parte da vida humana.

-Haverá outros sentidos para esta palavra, mas o essencial é aquele que nos diz que comunicar implica sempre o estabelecer de uma relação ou ligação entre pontos ou pessoas.

-Deste modo, a comunicação é o sustentáculo da vida social e um meio que possibilita e proporciona as relações humanas.

-Assim, nenhum ser humano pode escapar à comunicação, todos vivem com ela, quer dizer, a comunicação é inevitável.

-Na verdade, todos os indivíduos emitem e recebem mensagens através de códigos, sinais ou símbolos:
- um sinal é um objecto, gesto ou ideia que permite identificar algo de modo claro e rápido (por exemplo, o sinal de proibição, dizer adeus ou a bandeira vermelha na praia);
- um símbolo transmite, normalmente, um sentido mais profundo do que o sinal (por exemplo, o símbolo de uma religião, de um partido político ou de um clube desportivo).

-Podemos referir vários tipos de comunicação:
parar com o sinal vermelho e avançar com o verde (comunicação por sinais visuais);
não ocupar o estacionamento para pessoas com deficiência (comunicação codificada ou simbólica);
seguir as indicações do polícia de trânsito (comunicação gestual);
ler um anúncio num jornal (comunicação escrita);
pedir um café ao empregado de mesa (comunicação oral).

-Sabemos que o ser humano é um animal social, que vive em comunidade, inserido num determinado contexto político, cultural e económico e, enquanto tal, tem possibilidade de se exprimir e emitir as suas opiniões. Deste modo, todo o indivíduo deve ter o direito e o dever a informar e ser informado.

-Informar é transmitir a outra pessoa algo que ela desconhece.

-Para informar, podemos escolher a informação mais importante, usando a linguagem mais apropriada e a mensagem mais eficaz para o receptor que se pretende informar.

-No entanto, também podemos não informar convenientemente nem escolher a mensagem mais adequada, deixando o receptor com dúvidas ou mesmo mal informado.

-Actualmente, o poder dos meios de informação é tão grande que a comunicação tanto pode servir para informar como para enganar, ou manipular, ou ocultar a informação, fazendo passar por verdadeiro aquilo que é falso, e vice-versa.

-Informar e comunicar são, portanto, conceitos que se complementam. Na verdade, a comunicação é mais efectiva quando a informação é útil e verdadeira. Mas, ainda que não o sendo, a informação pode ser importante se permitir ao receptor retirar dela consequências positivas e interessantes para si próprio.




Linguagem, língua, fala e discurso

-Geralmente, os erros do pensamento manifestam-se nos erros linguísticos.

-As palavras e os conceitos estão ligados entre si, tal como se ligam ao pensamento e ao acto de falar.

-Muitas vezes usamos de forma indistinta termos que se referem a realidades diferentes. É o caso dos termos linguagem, língua, fala e discurso.

-LINGUAGEM: é a faculdade humana de comunicar, ou seja, é um sistema de comunicação que permite que uma mensagem seja trocada entre pelo menos duas pessoas,

-LÍNGUA: é um sistema de cariz social constituído por palavras e regras gramaticais. Sendo um património colectivo, uma língua evolui no tempo. Pode usar-se também o termo idioma para nos referirmos a ela.

-FALA: é a língua em uso, quer dizer, o acto concreto de utilizar uma língua ou idioma por parte de um sujeito falante.

-DISCURSO: é aquilo que se diz ou escreve numa determinada circunstância ou situação, procurando produzir um efeito sobre alguém.

-A linguagem que usamos com mais frequência chama-se linguagem verbal. Esta recorre ao uso de signos linguísticos, que são vulgarmente chamados palavras.

-Geralmente, as palavras apresentam duas componentes: uma componente material (sequência de letras e sons) denominada significante, e uma componente não material (que se refere a um ser, objecto ou ideia) denominada significado.

-Contudo, nem sempre uma palavra significa a mesma coisa, podendo variar de significado de acordo com o contexto e com o uso que uma determinada pessoa dela possa fazer.

-Deste modo, as palavras podem ser entendidas a dois níveis:
conotativo: no sentido particular que uma palavra ou enunciado podem tomar num certo contexto;
denotativo: refere-se ao uso permanente de uma palavra, que exclui qualquer valor subjectivo.



Principais formas de comunicação ou linguagem

-Existem diversas formas de linguagem. Podemos referir algumas:

Linguagem verbal (escrita) - manuscrita ou impressa (por exemplo, usando o alfabeto na língua portuguesa) e em relevo (por exemplo, o braille).

Linguagem verbal (oral)
- aparelhagens sonoras, telefone, rádio, computador, etc.

Linguagem verbal (audiovisual) - televisão, cinema, computador, etc.

Linguagem não verbal (gestual) - língua dos surdos e gestos dos polícias de trânsito.

Linguagem não verbal (codificada ou simbólica) - símbolos químicos, código de Morse, sinais de trânsito, símbolos usados na meteorologia, etc.

Linguagem não verbal (por sinais) - sinais de fumo e de luzes (visuais); tambores, sirenes e assobios (acústicos).

Linguagem não verbal (por acção) - lágrimas ou riso.



2. ARGUMENTAÇÃO E PERSUASÃO


A Comunicação Argumentativa

-Mais do que a mera transmissão de uma mensagem, a comunicação é um processo que visa levar os outros a aderirem às nossas ideias ou teses.

-O emissor, o código e a mensagem, o meio, o receptor e a resposta são os principais elementos do processo de comunicação. Todos estes elementos podem estar presentes no processo argumentativo.

EMISSOR - É a fonte da mensagem, aquele que emite a mensagem.

CÓDIGO - É o conjunto de regras, símbolos, palavras ou números através dos quais se constroi uma mensagem (aquilo que se quer transmitir), para que seja entendida pelo receptor.

MEIO ou CANAL (de transmissão da mensagem) - É a via pela qual circulam as mensagens. Aqui podem ocorrer interferências, que se chamam ruído. As interfrências podem estar ligadas ao emissor (perturbações na fala ou no tom de voz), podem ter a ver com o receptor (desatenção, dificuldade auditiva, etc.), podem relacionar-se com a mensagem (frases mal construídas ou confusas), com o código (uso de palavras ambíguas) e com o canal (interferências telefónicas, falhas na internet, fotocópia de má qualidade, etc.).

RECEPTOR - É aquele que recebe a mensagem e que a interpreta.

RESPOSTA - Consiste no retorno ou feedback, através do qual o emissor avalia a eficácia da sua comunicação.


-Grande parte da comunicação que realizamos está ligada à argumentação.

-Na verdade, no nosso dia-a-dia argumentamos com muita frequência, procurando convencer os outros a aceitarem os nossos pontos de vista, a aderirem às nossas teses, a agirem de acordo com o que nos parece mais razoável.

-Toda a comunicação argumentativa, sendo um processo onde se trocam mensagens, pressupõe uma língua em comum e o reconhecimmento pelo emissor e pelo auditório (pessoa ou conjunto de pessoas que recebe a mensagem) da dimensão racional da argumentação e da possibilidade de alteração do comprtamento por adesão a tal argumentação.

-Segundo Aristóteles, existem três dimensões da comunicação argumentativa: a do orador, a do auditório e a da mensagem, as quais ele denominou, respectivamente, de ethos, pathos e logos.

-A dimensão do orador (ethos) refere-se ao carácter do orador, à sua integridade e honestidade e, neste sentido, quanto mais um orador, através da palavra, se mostrar digno de confiança e de respeitabilidade, mais facilmente o auditório aceitará as suas teses. Se, através do seu discurso, o orador conseguir persuadir o auditório de que as suas qualidades morais são elevadas, mais o auditório terá em alta conta o carácter do orador e mais provavelmente se deixará convencer pelos seus pontos de vista.

-A dimensão da mensagem (logos) refere-se aos argumentos racionais organizados em discurso, articulados pelo orador para defender o melhor possível as suas ideias. Nesta medida, quanto melhores forem os argumentos, isto é, quanto mais coerência lógica tiverem, mais persuasivos se tornarão. Assim sendo, a força dos argumentos em si mesmos será a forma de o orador defender as suas teses e de obter a adesão do auditório, levando, eventualmente, a uma alteração de comportamentos.

-A dimensão do auditório (pathos) refere-se às emoções, paixões e sentimentos que o orador consegue despertar no auditório. Deste modo, levando-o à exaltação, à euforia, à revolta, ao sentimentalismo, à agressividade, etc., mais facilmente o orador conseguirá convencer o auditório a aderir aos seus objectivos. Neste caso, o orador deverá possuir alguns conhecimentos de psicologia, no sentido de melhor estimular as emoções dos ouvintes para mais eficazmente os persuadir.






Argumentar e demonstrar

-No nosso quotidiano argumentamos frequentemente, mas não utilizamos os mesmos argumentos para demonstrar um problema matemático ou um problema social.

-Assim, temos que distinguir a argumentação da demonstração.

-A demostração parte de proposições indiscutíveis e a argumentação parte de proposições discutíveis.

-A demonstração é impessoal, não depende da pessoa que a apresenta nem do contexto em que é apresentada; por outro lado, a argumentação depende muito de quem e como argumenta, da situação em que ocorre e do objectivo que a argumentação tem em vista.

-Enquanto a demonstração não pressupõe uma relação directa entre indivíduos, a argumentação é marcada pela relação entre orador e auditório.

-A demonstração aplica-se especialmente à matemática e à lógica, aplicando~se a argumentação sobretudo nas ciências sociais e humanas, em áreas como a ética, a política, o direito, etc.

-A demonstração baseia-se na lógica formal, onde só existe verdade ou falsidade, não havendo lugar ao meio termo; ao invés, a argumentação baseia-se na lógica informal, em que não se está somente no domínio do verdadeiro ou falso mas também no do plausível ou provável.

-Na demonstração usa-se uma linguagem abstracta e simbólica, enquanto a argumentação usa a linguagem natural, isto é, a linguagem do dia-a-dia.

-Demonstração e argumentação não possuem a mesma lógica, procurando a demonstração estabelecer a verdade de uma proposição de um modo evidente necessário, enquanto o objectivo da argumentação é persuadir e convencer um auditório.

-Onde a argumentação e o discurso persuasivo se revelam particularmente importantes é nos tribunais, visto que é através do confronto de argumentos que se chega a uma decisão. Também na política, onde se busca a adesão dos eleitores, e na publicidade, onde se procura promover a compra de um produto, o discurso argumentativo se revela bastante importante.

3.OPINIÃO PÚBLICA E PUBLICIDADE

Televisão, publicidade e espírito crítico

-A televisão nasceu em meados do século XX e está hoje presente em quase todas as casas de muitos países do mundo.

-O papel desempenhado pela televisão é tal que o seu impacto na vida das pessoas é considerado como escola paralela.

-A televisão tem uma forte influência na formação das nossas atitudes e comportamentos.

-O triunfo das imagens na chamada aldeia global e a actualidade (o directo) da informação, isto é, o seu carácter imediato, parecem imprimir um ritmo alucinante que ameaça o espírito crítico e a capacidade de análise e de reflexão do espectador (consumidor?) relativamente à informação.

-Assim, os media constituem hoje o chamado quarto poder.

-Quem possui o domínio da informação tem ao seu dispor enormes possibilidades que, sem existência de um controlo rigoroso, influenciam poderosamente a opinião pública.

-Muitos meios de comunicação, especialmente a televisão, promovem a distracção e alienação das pessoas, transmitindo intensivamente telenovelas, desporto, concursos degradantes ou imagens de fanatismo religioso. Por outro lado, apresentam-se "heróis" efémeros, que são meros produtos artificiais, e a publicidade surge em larga escala.

-Deste modo, verificando-se uma quase total ausência de programas de carácter cultural, estes meios de comunicação fomentam a degradação do indivíduo enquanto ser pensante e possuidor de espírito crítico, contribuindo em larga medida para a formatação da sua mente.

-Em qualquer democracia o pluralismo dos media é um sinal de vitalidade e maturidade cívica, visto que, desta forma, diferentes pontos de vista podem encontrar expressão. No entanto, devido à centralização dos media em poucos e poderosos grupos informativos, podemos questionar-nos acerca da liberdade em televisão.

-Será que a televisão nos mostra tudo que poderia mostrar? Será que esconde informação? Com que critérios se decide o que mostrar e não mostrar? Será que existem pressões políticas e amizades ou conveniências que se fazem sentir na abordagem das notícias?

-Sabemos também que a publicidade é um negócio de milhões a que os meios de comunicação estão ligados. Podemos igualmente questionar-nos a este respeito. Será a publicidade uma forma de manipular e denegrir o próprio ser humano?

-O criador da publicidade da Benetton, Olivieri Toscani, pensa até que a publicidade pode ser vista como um crime contra a humanidade.

-Podem enunciar-se alguns crimes que, de certa forma, é possível atribuir à publicidade:

crime de inutilidade social (às grandes empresas falta o sentido moral de intervir socialmente no sentido de combater flagelos como a sida, o alcoolismo ou o racismo);

crime da mentira (a publicidade promete juventude, beleza, virilidade, sucesso, etc., quando muito dificilmente tais objectivos serão atingidos no uso dos produtos publicitados);

crime contra a inteligência (a publicidade não valoriza a inteligência do consumidor, antes explora o seu inconsciente e as suas emoções mais básicas);

crime de persuasão oculta (pelo uso de mensagens subliminares, que o consciente não detecta, mas que o inconsciente armazena);

crime da adoração de ídolos (porque leva à imitação dos modelos apresentados);

crime de exclusão e de racismo (na publicidade só entram modelos atraentes e pertencentes às comunidades maioritárias);

crime contra a paz civil (pois transmite uma ideia de felicidade, que se afigura inalcançável, e, por isso, geradora de frustração, competição, depressão ou mesmo delinquência);

crime contra a linguagem (pelo uso de slogans, frases feitas e frases curtas que nada dizem ou complicam o sentido das palavras).



A Opinião Pública

-Chama-se opinião pública ao juízo dos cidadãos sobre qualquer assunto da actualidade.

-Os governos e a oposição têm em conta a opinião pública para tomar decisões ou defender pontos de vista.

-A opinião pública pode revelar conhecimento sobre um assunto, mas também pode corresponder a uma total ignorância, estando sujeita aos efeitos da manipulação.

-A opinião pública tem a sua importância mas não se sobrepõe ao voto dos cidadãos.

-A formação da opinião pública é um fenómeno complexo que está dependente de vários factores, nomeadamente os rumores, os grupos, a comunicação interpessoal, os guias de opinião e a nossa tendência a escolher a informação que está de acordo com a nossa opinião.

-A formação e manipulação da opinião pública, o poder da publicidade e dos grandes grupos que controlam os meios de comunicação, a ligação de todos estes mecanismos ao poder político ou aos partidos que se vão alternando no poder, podem levar-nos a uma reflexão bem interessante e a deixar no ar as seguintes questões:

Será que a opinião pública é mesmo aquela que se publica nos meios de comunicação?
A quem convém manter os cidadãos mal informados?
Porque é que não existem mais programas culturais e de informação e os que existem são todos semelhantes?
Porque é que o poder político e o poder dos grupos que controlam os meios de comunicação tem estado na mão de tão poucos?
Porque é que, em termos políticos e comunicacionais, quase não se debatem temas que interessam aos mais desfavorecidos e às minorias?